O dilúvio de 23 e as bundas de vocês.

    

        Foto: Flávio Tavares

De sábado para domingo um dilúvio de proporções recordes tomou conta de todo litoral paulista.
Nunca se viu tanta chuva e ao mesmo tempo nunca se viu tanta bunda.

Não estou falando das bundas moles que já na terça-feira de carnaval ensaiavam levar cadeiras e guarda-sóis nas praias próximas a São Sebastião para curar a ressaca, como foi reportado na internet, mas das bundas multicoloridas e purpurinadas que invadiram minhas redes sociais neste carnaval, em meio a tragédia anunciada. Desta vez eu não mostrei a minha.

Antes da tragédia, memes anunciavam:
“Guerra na Ucrânia e o brasileiro pronto para pular carnaval.”

Neste caso, a distância do fato não é capaz de nos sensibilizar a ponto de não extravasarmos nossos desejos carnavalescos. Compreensível, não é com a gente e está longe pra caramba. Será?

Mas o que seria capaz de frear nossos impulsos de festejos carnais?
A tragédia no litoral norte, destino preferido de muitos paulistas para descansar, não foi.
As enchentes de vários pontos da cidade de São Paulo e da Baixada Santista, também não foram. Até hoje, só a pandemia foi, nada mais.

Parece que já estamos acostumados a estas tragédias. Não importa onde e como acontecem. Não duvido que dentro de uma semana ou quinze dias o assunto vai começar a se dispersar. Assim como aconteceu com a tragédia de Petrópolis e Recife, nos últimos anos.

Para não se sentir de mãos atadas, o povo se mobiliza para realizar doações, mostrando que o coração é maior que a bunda. Vimos também empresas aproveitando para impulsionar o marketing assistencialista, tirando rapidinho a bunda da cadeira e provando que assistencialismo não é só coisa de governos petistas. No Instagram, quem não se mobilizar para virar ponto de apoio emergencial está com a bunda desvirada para a lua.

E o que dizer do comerciante que tentou vender um litro de água por noventa reais?
Enfia essa garrafa na...
E os helicópteros que ao invés de cobrar três ou quatro mil reais para um voo da capital para o litoral, como normalmente fazem, decidiram cobrar trinta mil dos turistas endinheirados? Esses merecem tomar na...
Com trinta mil dava para fazer dez viagens de ida e volta, resgatando mais gente e levando as doações. Onde está o governo para incentivar e financiar este tipo de ação?
Eu quando penso em helicóptero, penso em emergência. Não há outra função.

Na contramão, barqueiros de praias vizinhas as áreas isoladas fazem travessias de graça ou por valores razoáveis para colaborar como podem. Afinal, estes são verdadeiramente o povo que levanta a bunda cedo e vai ajudar.

Depois do que vimos e discutimos nos últimos cinco dias, será que temos argumentos suficientes para uma nova política de moradia no país, em áreas similares a das praias de São Sebastião? A especulação imobiliária vai continuar empurrando os pobres até os limites das encostas?

Quem vai levantar a bunda da cadeira e desenhar um plano nacional a curto e médio prazo para resolver esta questão e evitar que novamente centenas de pessoas percam suas casas e suas vidas em áreas de alto risco.
Marina Silva, a hora é agora. Lula, a hora é agora. Tarcísio Freitas, a hora é agora.

Quero mais motivos para ver bundas de carnaval na minha tela do que para escrever textos como este com a bunda na cadeira, sentado como nossos governantes, que sentaram a vida toda com suas bundas velhas em cima do povo, cagando e matando os sonhos de carnaval com o barro que escorre pelos morros.

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