“Nem luxo nem lixo”, quero saúde para andar por aí ouvindo o som da Rita Lee.
Foto: Patricia Cecatti
Não é necessário perder uma grande artista como Rita Lee para que se façam homenagens, mas todas elas continuam sendo muito bem-vindas.
O título
deste texto foi minha singela homenagem a ela que escrevi no poema Meus poetas
geniais, lançado no meu primeiro livro ano passado – Identidade Poética
pela editora Scortecci em São Paulo. Mas ela merece mais de mim, afinal de contas,
“eu não tenho hora pra morrer por isso sonho”.
E foi nessas
tantas horas sonhando e tendo pesadelos acordado, vendo a morte de perto
durante a pandemia, que o som da Rita Lee me segurou andando por aí, de máscara
e fones de ouvido, me trazendo inspirações mutantes, mascando chiclete tutti
frutti enquanto seguia meu caminho, indo e voltando para casa.
“Ai de mim que sou assim”.
Durante um
show já no final da carreira, Rita chamou os policiais de filhos da puta por
baterem na juventude que estavam fumando seus baseados a céu aberto. O barulho
que ela fez rendeu mais uma prisão, mas ela fez jus ao trecho da sua música “Pra
pedir silêncio eu berro, pra fazer barulho eu mesma faço...”.
Quem teria
essa coragem? Se eu tivesse a metade da coragem dela, seria meio Rita.
Já em termos de poesia, se eu tivesse um por cento do seu talento, escreveria:
- “Agora
só falta você”.
“Mexo
e remexo na inquisição, só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão.”
Rita Lee, a
rainha do rock brasileiro infelizmente nos deixou. A mais feminista de todas as
feministas, nunca liderou um movimento. Ela era o próprio movimento lutando com
ovos de macho alpha, ou melhor, com útero de mulher ômega, livre, direta, potente,
doce e sincera.
Lançando
perfumes numa sociedade amplamente machista, racista e homofóbica e com todos
os demais preconceitos que se hoje ainda teimam em nos assombrar, imaginem há
cinquenta anos em plena ditadura militar. Nesta época ela teve sua primeira experiência
atrás das grades, grávida, e foi solta graças a ação de outra mulher potente,
Elis Regina.
Rita Lee foi
o próprio critério poético e arrebatadora de si mesma. Fez o povo feliz com
suas músicas. Fez o povo refletir com as suas ideias. Fez todo mundo “dançar
e rolar e rolar e rolar com você”.
“Meu bem,
você dá água na boca.”
Quem nunca
vestiu esta fantasia e sentiu arrepios tirando a roupa, nunca sentiu o tesão
dos seus versos e acordes musicais, arranjados pelo seu Amor Roberto de Carvalho,
exímio músico instrumentista completo. A dupla formou além de um casal
apaixonado, uma família com três filhos e uma porção de músicas que ficarão pra
sempre “molhadas de suor, de tanto a gente se beijar, de tanto imaginar
loucuras.”
Fazer “amor
por telepatia”, certamente é mais poético e gostoso do que fazer amor
virtual. Talvez fosse isso que ela teria escrito se a letra da música Mania de
Você fosse obra deste século. A imaginação pura e simples deste casal apaixonado
foi “um caso sério, ao som de um bolero”.
Com “saúde pra
gozar no final”, estamos nós tentando ficar por aqui, “pessoas
comuns, filhos de Deus, nessa canoa furada remando contra a maré”, não
acreditando em mais nada que nos dê tanta luz e saúde quanto suas músicas. Sem
você Rita, “até duvido da fé”.
Eu queria
escrever “mais e mais”, mas não “vou suportar a dor de ver
que perdi mais uma vez meu amor”.
Portanto
Rita, pra você e para suas músicas “eu digo sim”.
Seguimos te ouvindo. Os jornalistas das grandes mídias que lutem para escrever
o que estou aqui tentando fazer. É dever deles. Eu apenas, “sinto prazer, de ser quem eu sou, de estar onde estou, agora só falta você.”
PS: Eu vou agora “de frente de trás”, fazer um “pega
rapaz” com meu amorzinho. “Alô doçura”.

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