O racismo com aroma de tomates.


Os colonizadores inventores do racismo e idealizadores de toda tragédia do modelo de escravidão, que há 500 anos impõem sofrimento e dominação aos irmãos e irmãs de origem preta, nunca tiveram vergonha de ser quem são. Eles são os filhos dos reis.

A partir deste ponto central, diante de mais uma asquerosa situação que se repete dia após dia, ano após ano, e que se tornou uma perseguição particular no caso do jogador de futebol Vinicius Jr., está mais do que na hora de haver mais do que 48 horas ou um pouco mais de tweets, textos e notas de solidariedade em defesa do jogador nas redes sociais em mais uma marola que visa dizer não para o racismo. Não pode ficar por isso mesmo.

Apesar de importante esse movimento de repúdio em todo mundo, por si só, infelizmente não irá atingir a estrutura racista, principalmente aquela do outro lado do Atlântico, que tem aroma de tomates, touradas e é governada por reis há séculos.

Primeiro, a partir do alto do nosso privilégio branco tupiniquim, é necessário assumir que também somos racistas estruturais, mesmo que inconscientemente, fruto do resultado deste processo racial histórico. A partir disso, podemos refletir quanto as nossas atitudes no dia a dia para verdadeiramente somar nesta luta contra o racismo, que é dever de todos e todas, mas é fundamentalmente um processo de reparação para todos os negros e negras, que apenas desejam existir livremente. Portanto, é preciso ter empatia para lutar junto, pois não sentimos na pele a dor que eles sentem, mas somos capazes de perceber o tamanho desta dor, que já deixou muito sangue no chão.

E se o primeiro passo é assumir que nós brancos somos herança desta maldita monarquia racista, o segundo passo é agir de maneira antirracista o tempo todo visando sempre atingir a estrutura racista onde mais dói. No bolso! Na economia. Mas como fazemos isso?


Não adianta cobrar nas redes sociais e seguir assistindo a próxima rodada do campeonato espanhol, usando a camisa do Barcelona, do Real Madrid ou de qualquer outro time espanhol por aí. Assim como é dever dos jogadores de todos os times espanhóis que não compactuam com o racismo, parar de uma vez por todas o campeonato e iniciar um movimento de dentro para fora. Causando prejuízos financeiros e morais para as instituições espanholas. 

Neste caso particular do Vinicius Jr., as autoridades brasileiras estão pressionando o governo espanhol. Ponto positivo foram as sete prisões de torcedores racistas que foram identificados pelo sistema de câmeras do estádio onde aconteceu a fatídica partida no último domingo. Mas ainda é pouco. Muito pouco pois vimos que se trata de dezenas, centenas, de milhares de racistas que o perseguem naquele país, tornando explícito um processo que nós temos pendentes entre nós seres humanos. Combater o racismo estrutural.

Não é à toa que que isso ocorre sistematicamente com brasileiros na Espanha. Somos o país com o maior problema racial para resolver internamente e fomos os últimos a formalmente abolir a escravidão. E os filhos dos reis responsáveis por isso há 500 anos, continuam por lá plantando a semente do mal. Apenas não nos enganemos, as sementes que geraram esses tomates podres, deram frutos podres por aqui também e não são exclusividade espanhola.

“Eu tenho um sonho” – Martim Luther King,
Que Vinícius Jr. receba a luz de Luiz Gama para acender a fogueira da luta antirracista mundo a fora. Parafraseando o título do livro que escreveu Osvaldo Faustino “A luz de Luiz. Por uma terra sem reis e sem escravos.”


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