Uma crônica sobre o nada. Já que poesia não serve pra nada.


Segunda-feira, 29 de maio de 2023.

Está frio e chove em Santos. A cena matinal é bucólica pela janela. Quase ninguém sai de casa, são poucos guarda-chuvas que avisto do alto do quinto andar. Somente os carros transitam com certa pressa. Hoje é segunda-feira. Dia do tudo para alguns. Para outros, dia do nada.

Já arrumei a casa, lavei a louça, tirei o lixo do final de semana. Basta! As roupas lavarei somente amanhã, preciso de uma manhã cheia de nada para fazer.

A tarde tenho reuniões sobre tudo que possa me gerar alguns trocados e a noite seguirei atarefado. De manhã me atento a escrever um texto que não serve para nada para você ler aí sem ser julgado.

Faz tempo que ando confabulando com minhas entidades secretas quanto a escrever sobre o nada. O nada mesmo. Aquele vazio imenso acompanhado de um silêncio absoluto. Mas o silencio é constantemente interrompido pelo belo som dos passarinhos que cantam entre as breves pausas da chuva, meu estomago que demonstra sinais vitais e por buzinas de navios que me lembram a todo instante o quanto é constrangedor não fazer nada enquanto há tudo sendo feito ao meu redor.

Como é complicado exercer o nada hoje em dia, numa cidade então nem se fala. Talvez no campo o nada se conecte melhor com o tudo. Mas e a agricultura e pecuária? Nada a ver, lá a impressão do nada é tudo propaganda enganosa.

Percebi já faz uns anos que segunda-feira é o dia perfeito para tentar confrontar o tudo, para arriscar algumas horas que não servem para nada. E não estou falando de descansar, pois se não fazer nada dá trabalho, imaginem escrever sobre o nada em plena na segunda-feira.

Eu planejo meu nada semanalmente, nunca marco reuniões as segundas-feiras de manhã, mas acabo me reunindo com tantas tarefas e organizações que as vezes penso que seria melhor ter marcado logo uma reunião as sete horas para falar sobre tudo que iremos fazer nas próximas semanas. Nada poderia ser pior do que tudo isso. Resisto.

Se até agora você não entendeu nada sobre este texto, fique por aqui e continue lendo, pois não há mais nada pela frente que possa te render algum lucro, tudo será sobre nada e a ideia é que você preencha tudo que está aí dentro de você, com nada, ou melhor, que você possa se esvaziar de tudo através do nada, mesmo que somente por alguns míseros minutos sagrados de completa inutilidade. Isso tudo pareceu autoajuda budista. Que nada.

Penso que é justamente o nada que nós seres humanos buscamos a todo instante, mas logo que encontramos um pedacinho de nada, uma migalhinha de nada jogada no chão, desistimos de aumentar nossa conexão com o nada e insistimos em realizar tudo, afinal, o tudo vem do nada, e, portanto, o simples ato de esbarrarmos com o nada, já é por si só todo sentido metafísico, tanto do tudo, quanto do nada.

Mas o tamanho de tudo que fazemos no meu entender, depende do tamanho do nada ao qual nos permitimos estar inseridos. Ou seja, quanto mais nada, mais tudo e vive versa. Nos borramos de medo desse nada e vivemos buscando tudo. É tudo uma questão psicológica - diria minha terapeuta. O que você está sentindo agora, Fábio?
- Se eu disser tudo, ela vai me mostrar um mapa de emoções para eu tentar decifrar cada uma delas, mas se eu disser nada, talvez me encaminhe para o psiquiatra. Aí é tudo ou nada. Neste caso fico com tudo que estou sentindo, até voltar a não sentir nada.

Até aqui tudo bem, nada mal, não há nada que seja tão vazio e tudo que seja tão completo, mas eu mesmo enquanto escrevo já começo a perceber que o subtexto destas ideias são ideais vagabundos de pilantragem, rebeldia e subversão ao sistema do capital. Mas no fundo não é isso, não quero politizar nem anarquizar o tema, cada um faz tudo que quiser com a sua segunda-feira de manhã, ou não faz nada. Tudo é uma questão de escolha. Nada a ver com política. Tudo a ver com o nada mesmo.

Para completar a inutilidade desta matéria, estava pesquisando sobre o tema no google “a poesia não serve para nada” (pois voltei a escrever poemas – tudo inúteis), quando me deparei com todo tipo de pensamento sobre o tema. Eles são tão profundos que logo identifiquei uma certa hipocrisia nas palavras. Como podem escrever tudo aquilo sobre algo que não serve para nada? Se não serve para nada, deixa para lá. Mas tudo é uma questão de opinião, já dizia minha mãe - opinião não serve para nada. Justo ela, que opina sempre sobre tudo.

E foi pesquisando o nada, de uma maneira hiper racional com tudo, que reencontrei um poema de Manoel de Barros que gravei ano passado – “O Livro sobre nada”. É um poema de quatro páginas que fala sobre nada. Mas eu não tenho nada a dizer sobre ele, você precisa ler tudo para descompreender o nada. Neste quesito Manoel de Barros foi mestre.

Aí também lembrei que eu mesmo já tinha escrito um poema com o título “Nada” publicado no meu livro Identidade Poética. Este é mais curtinho e não tem nada a ver com a poesia do Manoel, mas tudo a ver com a minha visão poética sobre o nada, materializada no vazio de um apartamento pelado e dando asas a imaginação de quem consegue preencher o tudo com o nada. Ou o nada, com tudo. Estraguei o mistério da leitura, mas tudo bem, a poesia não serve para nada mesmo.

A não ser que você não tenha nada para fazer ou já tenha passado por tudo nessa vida, aí sim, recomendo de Fernando Pessoa a Vinicius de Morais, Cora Coralina a Clarice Lispector, Violeta Parra a Pablo Neruda, dentre tantos outros poetas inúteis que não fazem a menor diferença para ninguém.

Eles são tudo graduação, pós-graduação, mestrado e doutorado em inutilidade. Apenas Manoel de Barros é mestre na arte do nada.

E para encerrar, nada como a última sexta-feira em que sorteei três livros de poesia num evento de networking aqui em Santos, até porque brindes sempre são tudo inúteis e ninguém compra livros de poemas, mas no final do evento, conversando com uns e outros me disseram o seguinte:

- “Muito legal que você escreveu um livro, mas eu não leio poesia, trabalho com tráfego pago na internet. Estou precisando de alguém criativo para uma campanha. Como você faz para ser criativo?”

– Respondi: A poesia não serve para nada. Tudo é uma questão de repertório cultural.
Preciso de um gestor de métricas. Não entendo nada de tráfego.
Trocamos cartões...me liga segunda-feira?!

Tudo fluindo bem, mas até agora, nada!

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