A copa que não liberta dores

A copa que não liberta dores

 

Quem me acompanha faz tempo sabe que já devo ter ido a mais de quinhentos jogos no estádio. Jogos locais e muitas vezes fora de casa. Esse número só não é tremendamente maior pois desde 2016 vim morar no litoral e a vida de papai me mostrou que o futebol não é tão importante assim. Opa, calma aí!

Se não é tão importante assim, que raios estou fazendo escrevendo sobre a final da libertadores em plena segunda-feira se nem era jogo do Corinthians?

Eu explico e vou contextualizar porque o assunto é sério. Assunto de preto e branco.

É importante e não é só sobre futebol. Nem só porque torcedores do Boca invadiram o Rio para uma final contra o Fluminense. Isso nós corintianos já fizemos em 1976 na final do Brasileiro e foi tremendamente maior.

Eu não tinha nascido, mas os relatos são de que os 70 mil corintianos foram bem recebidos e se comportaram bem em terras cariocas. Invadir o Rio é com a gente mesmo, já fizemos isso inúmeras outras vezes em proporções menores que 76, é claro, aquilo jamais se repetirá (nem em tamanho nem em comportamento).

Mas aí você pode dizer que são apenas 400 km entre Rio e São Paulo. Buenos Aires é bem mais longe. Está bem, então eu te digo que em 2012 fomos em mais de 30 mil para o Japão e esse papo de quantidade se encerra aqui. Ah, e lá no Japão fomos muito bem recebidos também, tão bem recebidos que chegava a ser constrangedor fazer tanto barulho (mas a gente fazia mesmo assim!).

O que mudou de 1976 para cá foi tanto que é difícil explicar. Talvez a única semelhança de 1976 com a final de ontem foi o romantismo do futebol que há tempos não se via, tanto do lado tricolor das laranjeiras, quanto do lado dos xeneizes, pelo menos nas arquibancadas.

Já do lado de fora, desde a chegada dos argentinos em Copacabana na quinta-feira pudemos ver de tudo. Churrasco, bandeiraços, provocações e a violenta emboscada da torcida do Fluminense na praia que deixou marcas até em torcedores rivais do Boca na Argentina.
Esses que prometem pelas redes sociais um revide a altura na próxima visita de qualquer time brasileiro por lá.

A rivalidade entre brasileiros e argentinos tem crescido muito e extrapolou a esfera desportiva. A final entre Flamengo e River no Perú em 2019 escancarou uma veia aberta na américa latina quando vimos muitos argentinos imitando macacos para os flamenguistas. 

O racismo é o que move os brasileiros que se unem nessa luta e se amparam nesse motivo “como desculpa” para tacar um copo de cerveja na cara deles, só para começar. Nem todo Argentino é racista, é bom lembrar.

Os Argentinos dizem que a violência é gratuita e depois nós é que reclamamos por sermos discriminados. Que somos todos macacos – brancos e pretos. Guardem essa informação. Todos! Eles dizem. 

Brigas são comuns tanto aqui no Brasil quanto na Argentina. São Paulo e Buenos Aires adotaram jogos entre grandes rivais com torcida única. Será que não dava para prever o que iria acontecer no Rio? Era óbvio.

Além de a Conmebol não ter dado nenhum suporte a organização de uma sabida invasão argentina no Rio, a polícia carioca mostrou mais uma vez o que nós corintianos estamos cansados de ver. Uma super incompetência para gerir eventos de grande porte.

Os argentinos por sua vez pensam que a corrupção da nossa polícia funciona como a deles. Não basta chegar sem ingresso na porta do Maracanã e tentar subornar um membro da organização ou policial com cinquenta dólares como fazem na quebrada Argentina.

Aqui a régua é bem maior. Quanta inocência achar que iriam entrar sem ingresso na base do “empurra-empurra” com uma nota na mão. Num jogo desses, é mais importante para a polícia daqui mostrar serviço com bombas de gás do que coletar alguns dólares.
A coleta daqui tem conta vitalícia e funciona todo dia.

Mas o vira-latismo histórico colonial de brasileiros e argentinos está no sangue.

Argentinos eram muito melhor tratados por aqui quando eram uma nação endinheirada e invadiam nossas praias com dinheiro de verdade.

Nesta época o racismo deles não existia?

Está claro para mim que falar de invasão de torcida, racismo, e pó de arroz tem tudo a ver uma coisa com a outra. O preto e branco corintiano de 1976 protagonizou com o pó de arroz fluminense um jogo histórico, que só o dilúvio daquela tarde foi capaz de escancarar o que nós temos de mais comum. As peles pretas e brancas. Rivelino, ídolo de Maradona, Corinthians e Fluminense, era só um pretexto.

Na vitória de ontem do Fluminense, um gol do tricolor marcado pelo argentino Cano contra a xenofobia. Um gol contra o racismo do peruano Advíncola, único jogador preto do Boca.
E finalmente um gol de John Kennedy, jovem atacante preto tricolor, calando a soberba boca xeneize, com apenas um tiro no Maracanã.

Entre tantas coisas óbvias que aconteceram ao redor deste jogo, algo que venho pensando faz tempo não libertou as dores da américa.

É preciso entender que o racismo de argentinos contra brasileiros tem fundamento vira lata colonial. Mas a resposta de brasileiros brancos que se sentem ofendidos com o racismo deles, neste caso, precisa ser cuidadosamente avaliada. Não somos nem macacos brancos nem pretos. O racismo precisa ser combatido.

Mas porque será que apenas nos levantamos contra o racismo quando esse vem de fora?
Por que dói também para os brancos, se o nosso racismo interno é estrutural e cultural?

Somos todos contra o racismo!
Ou será que essa pauta não está sendo usada estrategicamente pelos brancos daqui para mascarar com pó de arroz, aquilo que não querem ver?

Nós também somos um povo racista.

E só iremos nos libertar dessa dor, quando encararmos de frente, olho no olho, preto no branco, sem pó de arroz.

Parabéns, Fluminense pelo merecido título!
Sabemos o gosto que tem calar a Boca.

Só não calo a minha.

  

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