Hoje é o dia seguinte à passagem de Ziraldo.
Em meio a tantas homenagens ao gênio cartunista, literário e com importante influência política em nosso país, me lembrei do texto que escrevi há dois anos atrás, onde conto um pouco do dia em que o conheci, no longínquo ano de 2002. Uma relação que me conecta fortemente com a literatura e a poesia.
Aquele dia foi inesquecível, mas infelizmente não tenho nenhum registro fotográfico, afinal era necessário um fotógrafo de prontidão. Os celulares mal enviavam mensagens de SMS, o que dirá fazer uma foto. Mas enquanto não encontro uma foto oficial quem sabe nos arquivos da Editora Melhoramentos, meu pai que o conhecia muito bem, me mandou umas fotos do dia em que fomos em 2019 ver a exposição do Ziraldo na casa Melhoramentos, com meus dois meninos maluquinhos, assim posso ilustrar essa homenagem com sentido mais pessoal e adicionar mais uma data na linha do tempo para confundir tudo, mas isso é só um detalhe.
Abaixo o texto que publiquei no facebook em 2022 a respeito do lançamento do meu livro, citando a passagem com o Ziraldo na Bienal de 2002.
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13/07/2022
O ano era 2002, o mesmo comecinho de julho, no Centro de Exposições Imigrantes.
Vinte anos separam minha primeira participação na Bienal Internacional do Livro de São Paulo como vendedor no stand da Editora Melhoramentos, para minha segunda participação, desta vez como autor, no stand da Scortecci Editora. O tempo passou num piscar de olhos.
Foram dois casamentos, dois filhos, uma enteada, vinte quilos a mais, um restaurante, um bar, uma loja, uma faculdade, uma pós-graduação, muitos cursos, uma viagem ao outro lado do mundo por um ano, trabalho, trabalho e mais trabalho. Tem aí também alguns campeonatos brasileiros, uma libertadores e uma invasão ao Japão. E mais um monte de tropeços, fracassos e triunfos que me fazem um mortal igual a todos os mortais.
Mas tudo isso não vou falar agora em detalhes, pois é assunto para horas de “botecagem” ou para vocês descobrirem nos subtextos de alguns poemas e crônicas do meu primeiro livro, Identidade Poética, que acabei de lançar na vigésima sexta edição da Bienal de 2022, no último sábado de manhã.
Esse ano fui acompanhado do meu pai, de carona com meu irmão, que foi comprar uns panos no Shopping Center Norte enquanto eu dava um jeito de colocar meu pai para dentro da Bienal.
Os ingressos haviam esgotado pois desde 2018 a feira não acontecia em virtude da pandemia, então não daria para meu irmão entrar, mas a cabeleira branca do velho, a simpatia e o pré-cadastro de blogueiro que fiz para ele às duas horas da manhã de sexta-feira, nos davam uma esperança de conseguir seu ingresso no evento.
E não demorou muito, deu certo, sem filas, mas não só por tudo isso que citei acima, é que a balconista do credenciamento achou o máximo um autor vir acompanhado com um blogueiro irmão gêmeo do cantor Fábio Júnior (vai dizer que ele não parece!). Então, depois de muitas risadas, o crachá estava no peito dele com a legenda do seu livro escrito há quinze anos, Olhares Desatentos.
Este também era o nome do seu primeiro blog, ou seja, tudo dentro do normal, era só uma questão de ajustar a linha do tempo.
Para minha surpresa, chegando lá dentro, o stand da Scortecci Editora era colado no stand da Melhoramentos. Nada é por acaso.
Falando em Olhares Desatentos, o Breno Lerner, exímio chef de cozinha, escritor com diversos livros de receitas publicados e ex-diretor da Editora Melhoramentos, foi quem escreveu a biografia do livro do meu pai. O livro na época não foi lançado pela “Melhô”, mas pela Ateliê Editorial.
Isso para não parecer que havia ali um jogo de interesses nos cargos que exerciam dentro da empresa. Mas a dupla de diretores e amigos não ligava para isso quando o assunto era abrir as portas para os jovens filhos trabalharem. Eu entendo, não era nepotismo, era apenas para apontar um caminho melhor do que aquele que se apresentava naquela época.
E era temporário, ou seja, logo daríamos o fora depois de contribuir com as vendas e aprender a suar camisa.
Mas mal sabiam eles a raiz que estavam criando dentro de nós, escolhidos sem processo seletivo.
Uma semana antes da Bienal de 2002, reuniram todos os vendedores por 5 dias intensos de treinamento na Lapa, em São Paulo, na sede da editora. O Breno conduziu a semana. Das oito da manhã às cinco da tarde todos os dias ele falou sem parar, acendendo um cigarro no outro dentro da sala de treinamento fechada (sim, naquela época podia fumar e ai de quem reclamasse).
A fumaça que ficava no ar tinha uma magia. Através dela eu via um homem barrigudo com um conhecimento literário de cair o queixo. Ele contou todas, simplesmente todas as histórias de todos os livros infantis do Ziraldo, com uma riqueza de detalhes que era traduzida no silêncio e nos olhares atentos de todos os jovens vendedores que estavam presentes no auditório. Fora os resumos dos dicionários em diversas línguas, os livros de receitas, romances, poesia e etc.
A semana passou voando e nós aprendemos, muito! Tanto que batemos a meta, dobramos a aposta e superamos todas as expectativas de vendas na Bienal.
O momento mais marcante da feira de 2002 foi a sessão de autógrafos com o Ziraldo. Lhe servi água, pedi autógrafo e pasmem, precisei formar com outros vendedores um cordão humano com os braços entrelaçados para conter a multidão que queria abraçá-lo. Meus quase 1,90m e juventude ajudaram a impor respeito, mas confesso que por pouco não quebrei o cordão e fui eu mesmo dar um abraço nele, colocá-lo em meus ombros e sair pelo meio do povão, gritando como um menino maluquinho:
Naquele ano, no último dia de feira, eu ouvia o Marcos, gerente geral da editora gritar nos corredores:
- Dobramos a meta, essa é a melhor feira da história!
Hoje a balada é por nossa conta!
E foi assim que terminamos todos nós aquela Bienal de 2002, desde vendedores até diretores, no antigo Grazzie Dio na Via Madalena, madrugada adentro ao som do Farufyno, com muito samba rock para remexer os quadris e trocar beijos e abraços na pista!
Mas não para por aí, eu tenho certeza de que vi passando perto de mim nos corredores entupidos de gente da Bienal de 2022, o Rodrigo Pirituba, percursionista desta banda que marcou minha geração e acompanho até hoje. Estava tão cheio que quando percebi ele já tinha sumido. Mas o Marcos estava na porta e foi a primeira pessoa que cumprimentou meu pai quando mal tínhamos passado a roleta de entrada.
E o Breno também estava lá nesta edição de 2022, transmitindo o programa Nóis na Cozinha, no Cozinhando com Palavras, na Editora Senac SP.
E mais uma eu vi, o homem deu show!
Deve ter um túnel que leva 2002 para 2022.
E o que aconteceu nesses vinte anos, virou poesia e muito bem temperada!
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